Autores Convidados

Relatos de um adolescente preso num corpo de ancião.

Quando você está triste, não conforta ouvir que as coisas vão ficar melhores. Você não discute, mesmo que pense “como assim você diz que as coisas vão ficar melhores?! Você não sabe! Não pode saber!”, mas você no fundo sabe que de alguma forma as coisas sempre acabam ficando melhores. Até que fiquem uma merda de novo.

Também não costuma confortar imaginar como as coisas ficarão melhores, talvez num futuro próximo/distante. Digo futuro próximo/distante, pois essa análise está passível de certa subjetividade onde o próximo e o distante dependem unicamente da perspectiva. Mas o que importa no momento não é saber se o futuro próximo/distante é próximo ou distante pra você e sim o quanto as coisas que acontecerão nele podem te ajudar.

No momento, essas coisas não podem ajudar de maneira alguma. Talvez pensar em realizações reais –  fora todos aqueles pensamentos ilusórios de coisas impossíveis das quais você sabe que são impossíveis, mas se mantém pensando nelas – como obter independência em diversos sentidos, passar em alguma universidade importante, conseguir algum emprego bom, um bom salário, status.

Acho que pensar em como as coisas serão boas no futuro não te ajudam tanto no presente, já que elas não parecem deveras reais ou tão reais a ponto de te ajudarem. Acho ainda que deve ser pensado quais os reais motivos propulsores desses pseudo desejos e a quem você os faz.

Porque entrar em uma boa universidade? Para adquirir muito ou conhecimento ou simplesmente para obter status?

E o bom emprego junto com o bom salário? Independência financeira ou status?

Status? Status ou status?

Pois é, parece que tudo remete a mesma resposta. Então me pergunto (e sugiro que faça a si mesmo essa pergunta) “Quais são as minhas prioridades?” E complemento com: “Quanto me orgulho delas?”

Lembra quando você era apenas um garotinho (a)? Tinha tantos sonhos e ambições, estou mentindo? Imagine esse garotinho (a) que você foi um dia, como se ele (a) estivesse olhando para quem você se tornou hoje. Ele (a) se orgulha do que vê?

Às vezes eu penso que é preciso restabelecer prioridades constantemente, talvez assim a vida não seja tão monótona, talvez assim a monotonia não seja tão monótona. Mas um único fundamento que recentemente estabeleci, este que até então não se modificou, é que estas prioridades devem ser pensadas de forma que te traga orgulho. Enfatizo: TE traga orgulho.

Pense no quanto as pessoas gastam de suas vidas tentando deixar outras pessoas orgulhosas e mesmo depois de perceberem que estão fazendo isso se mantém fazendo isso, porque já se acostumaram.

Eu digo que estas pessoas não estão perdendo suas vidas. Como perder algo que nunca tiveram?

Também penso no quanto as pessoas reclamam de estar presas sem sequer notarem que estão presas em prisões que elas mesmas fizeram com regras que elas mesmas estabeleceram ou que as foram impostas e aceitas por elas de bom grado. E ainda, muitas dessas pessoas descobrem que têm a chave para a liberdade, mas o medo acaba sendo maior do que os anseios pela liberdade e as experiências que ela os traria.

Muitas pessoas acham a riqueza e a beleza muito importantes – Bem vindos ao pavilhão 14. Aqui passei muitos de meus dias, preso sem sequer saber porque; sem sequer saber por quem. Preso.

Recentemente, descobri quem aqui me havia prendido, mas descobri também que poderia me libertar.

Hoje sou livre. Mas às vezes volto, só para visitar.

Quando vejo a degradação de pessoas que assim como eu acabam ficando nessa prisão, sinto que já tenho motivos suficientes para voltar à liberdade. Por incrível que pareça, essa prisão é muito mais atraente e confortável que a liberdade, isso claro para os olhos quase ou completamente cegos que não conseguem enxergar a liberdade em seu real significado. Pessoas essas tristes que além de se prenderem em suas prisões, ordenam a si próprios que fechem seus olhos como ditadores tiranos com monopólio total de poder sobre absolutamente todas as suas vidas.

Demorou muito tempo para eu perceber que deveria fazer as coisas por mim. Isso parece algo óbvio, clichê. Aquilo que todo mundo sempre diz, aquilo que ninguém nunca faz.

Eu só percebi isso e comecei a colocar em prática, quando passei a analisar quais eram os reais motivos de minhas ações. Ora pois, porque passar a vida a fazer coisas por pessoas, para ser respeitado e reconhecido por pessoas, para ser lembrado e mencionado por pessoas, se em cerca de um século tanto você quanto todas essas pessoas serão apenas pó insignificante. Essas pessoas tentam ser lembradas exatamente para não se tornarem pó insignificante, mas acabam se tornando pó insignificante mesmo antes de morrer. Acabam morrendo em vida para serem recordados em morte. Isso também me faz refletir sobre o quanto complicamos as nossas vidas tentando deixá-las mais simples.

Quando você está triste, parece que nada te anima. Às vezes você não se permite ficar feliz, não pensa ter esse direito. Fica simplesmente sentado esperando a felicidade te encontrar.

Eu te digo que a felicidade existe, mas ela é tão preguiçosa quanto você. Ela também está à espera de ser encontrada. Talvez esteja muito distante, talvez esteja próxima. Prefiro pensar que está próxima/distante e que a subjetividade e a incerteza dessa proximidade são motivos para seguir em frente.

E ela anseia, Deus sabe o quanto anseia e ser encontrada, às vezes mais que você, porém ela se vê imóvel, assim como você pode estar se sentindo agora.

Só você pode sair e procurar pela felicidade. Enquanto procura, pode errar o caminho, pode errar feio, ir pelo caminho oposto. Mas ao encontrá-la, saberá que valeu a pena. E nesse percurso de busca incansável, talvez se satisfaça com os trechos de uma felicidade que sequer sabe se realmente existe, mas espera ansiosamente pelo encontro que provavelmente mudará a sua vida.

 

Jeff Gonçalves

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