Vida

Devaneios sobre a depressão (ou o que a cerca).

Nos últimos dois meses, parei de tomar meus medicamentos por decisão própria, e não por ter terminado o tratamento. Mas, então, vieram as sensações que até então eu não sentia – ou não lembrava ter sentido. Sensações estas que me fizeram parar por um instante e escrever sobre isso.

Atualmente, sem as medicações, me sinto mais sensível. Seriados me fazem chorar, noticias de jornal me fazem chorar e até quando me sinto muito feliz, a sensação de felicidade ecoa dentro de mim, como se eu fosse uma caverna vazia, que de repente ouve vozes, ouve vida e a responde.

Essas sensações tão intensas me fizeram pensar que eu não estava bem, que eu precisava voltar com a medicação pra que os sentimentos se acalmassem e voltassem ao normal. Levei isso até a minha psicóloga, que disse que deveríamos ficar de olho na minha sensibilidade, pois poderia sim ser um efeito colateral de ter interrompido o tratamento.

Depois dessa conversa, percebi que eu vigiava minhas ações constantemente, afim de extrair qualquer coisa fora do normal.  Quando eu sentia muita raiva, muita felicidade, tristeza, angustia, amor, tudo… tudo era motivo pra desencadear a ideia de “devo voltar com a medicação”.

E eu não queria, de forma alguma, voltar ao tratamento. Devo dizer que isso é completamente errado… parar um tratamento do nada. Mas todos os dias, ao tomar a medicação, eu sentia meu organismo pedir, implorar, para que eu não enviasse mais substancias a ele.

Eu sentia meu corpo ser feito de medicamentos.

Então hoje, ao assistir o noticiário, tive uma imensa vontade de chorar – pois uma noticia em especial me tocou muito – e então eu percebi, que eu não estava emotiva por um efeito colateral de um medicamento.

Eu estava emotiva porque eu sou e sempre fui emotiva. Os medicamentos, de alguma forma, tiraram minha sensibilidade – já que a depressão a multiplicou mil vezes mais – e eu já não conseguia sentir nada.

Ao parar a medicação, eu nem lembrava mais como eu era antes dela. O que eu gostava, como eu me sentia, quais os meus pensamentos normais. Eu tinha me tornado uma extensão da minha depressão, uma extensão dos meus medicamentos e hoje é estranho me ver, sendo só eu, sem uma extensão de nada e nem ninguém.

Eu demorei pra entender, que eu não sou a depressão, a depressão que fez parte da minha vida por um determinado tempo, mas isso não quer dizer que todas as minhas ações do diagnostico em diante, sejam por causa dela. Eu demorei pra entender que antes da doença eu já era alguém, e vou continuar sendo alguém depois dela.

Até que finalmente eu entendi. Hoje sou só eu, e isso é um alivio.

Ariane Moura

Notas de Rodapé: A depressão deve ser tratada com profissionais, sendo eles: psicólogos e psiquiatras. Qualquer sintoma diferente durante o tratamento (como por exemplo, vontade de largar o tratamento, parar de tomar os remédios) deverá ser conversado com os profissionais que o ajuda. A depressão é algo sério. 

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